Da passarela ás araras: entendendo o processo criativo dos desfiles até as coleções comerciais

Depois de acompanhar por algumas temporadas as principais semanas de moda brasileiras – São Paulo Fashion Week e Fashion Rio –, e ver os desfiles masculinos com magníficas coleções, fiquei pensando nos comentários de colegas “leigos”, sobre a diferença entre as peças desfiladas nas passarelas, e as que vão para as lojas. Ouvi uma vez de um colega, que ele havia ficado muito decepcionado quando assistiu a um desfile, e esperou ansiosamente a coleção chegar às lojas, e quando essa finalmente apareceu, não parecia em nada com a que foi desfilada. Esse sentimento é comum aqueles que podem não entender muito bem a diferença entre o processo criativo do estilista para um desfile, e uma coleção comercial – feita para ser vendida em suas lojas.

Conversando com alguns estilistas sobre essa diferença, pude trazer ideias que talvez esclareçam alguns pontos para os que ainda se confundem, e/ou ficam frustrados com o “resultado final” da coleção que tanto gostou no desfile. Victor Dzenk – estilista mineiro que desfilou sua última coleção no Fashion Rio – explica que

para passarela apresentamos looks mais elaborados, com acessórios, bordados, elementos e uma produção pensada para aquele momento, tornando as peças únicas. Já para a coleção que chegam as lojas, seguem o mesmo fio condutor, porém são eliminados detalhes de produção e acessórios”.

Fazer uma coleção para um desfile custa muito caro, tecidos nobres, bordados á mão elaborados minunciosamente que podem levar meses para ficar prontos, enfim, um trabalho que exige muito tempo e foco. Se essas peças fossem levadas para as lojas, seus valores poderiam ser absurdamente altos, afastando assim o comprador da marca, ou a tornando uma loja elitizada, o que pode não ser a intensão do estilista.

 

Existem coleções e peças que vão direto do desfile para ás lojas, tornando peças únicas e desejadas pelos fashionistas, mas o valor de mercado é elevado, tendo que desembolsar uma pequena fortuna, que pode ir além dos valores de habituais encontrados nas lojas da marca. O que pode não ser viável para alguns, que acostumados a comprar as chamadas peças comerciais, podem se assustar com os valores das chamadas “peças exclusivas”. O jovem estilista Caio Sesanasc aponta que

as peças das coleções comerciais têm uma pegada objetiva, com um público alvo certo, que compra roupas com características “simples”, onde são tirados pequenos detalhes das roupas apresentadas nos desfiles”.

 

Outros estilistas preferem fazer de modo diferente, apostando no conceitual para a passarela, e para o comercial apostam em coleções capsulas, como é o caso do Felipe Fanai – que desfila na Casa de Criadores:

Meu modo de trabalho é diferente dos estilistas convencionais. Para o desfile eu deixo apenas o conceitual. Proponho uma coleção através de um tema e sempre faço roupas nada convencionais, já no comercial, eu trabalho com coleções capsulas, faço pelas exclusivas e lanço praticamente uma coleção a cada duas semanas, com peças voltadas para o dia-a-dia”.

Existem ainda estilistas que nadam contra essa corrente, como Fause Haten, lançou a pouco sua nova marca, a FHSP, que visa não seguir as tendências de moda. Segundo Fause, ele criou a marca pela vontade de usar roupas que antes só se via em desfiles, tornando assim as mais acessíveis ao grande público.

 

Frustração para alguns, alívio para outros, no fim vemos que as peças que assistimos nos desfiles são poucas vezes encontradas nas lojas – em raras ocasiões. O interessante é identificar a inspiração e os traços nas peças antes e depois dos desfiles, na tentativa de conseguir enxergar o DNA da marca, a essência que faz com que nos identificamos com ela.

Confira Parte II (aqui)

Author

Fabiano Gomes

Fabiano Gomes Editor-Responsável

Formado em Biblioteconomia e Ciência da Informação (UNIRIO) atuou como bibliotecário até o seu limite. Cansado de buscar informação relevante de Moda Masculina em blogs e sites brasileiros, decidiu criar O Cara Fashion para suprir a própria necessidade.

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